Entre os dias 21 e 23 de agosto, em Cáceres (MT), foi realizado o IV Colóquio Mato-Grossense De Educomunicação. O evento, que contou com a participação de 290 inscritos, representando 15 estados da federação, foi sediado no campus da Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT), e debateu o tema “Educomunicação Socioambiental, Intercultural e Indígena”. Realizado de forma híbrida, o colóquio foi organizado pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo, Educomunicação e Cidadania da Universidade, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ensino em Contexto Indígena Intercultural (PPGECII) e de Graduação em Jornalismo, contando com o apoio da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom).
O Colóquio, coordenado pela associada da ABPEducom Antonia Pereira Alves, em colaboração com docentes do curso de Jornalismo e pesquisadores do Educom.Jor, possibilitou trocas de saberes ancestrais, comunicativos e educomunicativos, a partir de experiências de ensino, extensão e pesquisa, desenvolvidas por pesquisadores brasileiros em diálogo com as experiências de indígenas mato-grossenses e amazonenses.
Com mediação da Profa. Roscéli Kochhann, a mesa de abertura, que debateu o mote do evento, contou com a participação do professor Ismar de Oliveira Soares, presidente da ABPEducom; Carmen Gattás, formadora da SME-SP; Carolina Machado Oliveira, da Universidade de Bournemouth (Reino Unido) e Mário Ramão Villalva, da Unila. O evento partiu de 5 eixos temáticos, destacando elementos da interculturalidade na interface entre Comunicação, Educação e Meio Ambiente. Além da participação de Soares, a ABPEducom fez-se presente através de seus associados Ariane Porto, Carmen Gattás, Cristiane Parente, Mário Ramão Villalva, Marcela Brito, Lisa Costa e Angélica Lisboa, além do vice-presidente Mauricio Virgulino.
Vale ressaltar, neste contexto, que a UNEMAT é pioneira, desde 2001, na oferta de cursos de graduação e de pós, voltados para o universo das culturas originais do Brasil, contando, para tanto, com a Faculdade Indígena Intercultural (Faindi), no campus de Barra do Bugres, hoje estendendo turmas nos municípios de Luciara e Canarana, MT.
Presenças indígenas
Ganhou destaque a presença de lideranças indígenas como Caimi Waiassé (videomaker xavante com maior tempo de atuação, no Brasil); Kamatxi Ikpeng (codiretor do filme Tximna Yukunang, que retrata o ritual Yumpuno, momento em que o adolescente indígena deixa a infância e aprende a ser guerreiro); Kamikia Kisedje (que registra em áudio e vídeo as lutas dos povos indígenas do TIX – Território Indígena do Xingu); Kujãesage Kaiabi (cineasta que atua junto ao movimento de mulheres xinguanas); Takumã Kuikuro (idealizador do 1º Festival de Cinema e Cultura Indígena); além de Typju Myky (estudante de Pedagogia da Unemat).
Associado à ABPEducom e integrante da Cultura Guarani, o professor Mário Ramão Villalva foi reconhecido pelos participantes da sessão de abertura do IV Colóquio como um autêntico representante do perfil do que se poderia definir como um Educomunicador indígena, tendo sido ele mesmo o articulador do Projeto Educom.Guarani, iniciativa que conta, desde sua fundação, com o apoio da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu.
Meio Ambiente, Educomunicação e Juventude
Em sua fala na abertura do colóquio, Ismar Soares, abordou o tema: “Educomunicação socioambiental intercultural e indígena: os inícios”, momento em que foi apresentado aos participantes um breve relato sobre o caminho percorrido pela Educomunicação ao longo dos últimos 20 anos, na luta para se efetivar uma política pública de defesa do meio ambiente, calcada na mobilização e participação popular.
O Presidente da ABPEducom descreveu o diálogo que o Ministério de Meio Ambiente – também comandado à época pela ministra Marina Silva – e contando com o Profes Marcos Sorrentino como coordenador da área de educação ambiental – estabeleceu com a sociedade brasileira, ao longo dos primeiros anos do século XX, através de workshops e de consultas a especialistas, fatos que acabaram levando o Ministério a optar, já a partir de 2003, pela Educomunicação Socioambiental, constituída, finalmente, como referencial para a primeira política pública na área, em nível nacional. Referiu-se o palestrante, explicitamente, ao programa das Conferências Nacionais Infanto-Juvenis pelo Meio Ambiente, que teve início em 2003, chegando a 2025 com seis edições realizadas, envolvendo mais de 20 milhões de crianças e adolescentes de todo o país, tendo a Educomunicação como seu referencial básico.
Ao abordar a temática da injustiça climática, pela qual o Brasil passa, hoje, Soares referiu-se à implementação do projeto Educom & Clima, do Núcleo de Comunicação e Educação da USP (NCE/USP) com financiamento da FAPESP, e que tem como objeto estudar o papel Educomunicação no enfrentamento à emergência climática a partir do território escolar e que tem como título a pergunta: “Como a Educomunicação pode ampliar e qualificar as práticas de educação climática na Educação Básica no Brasil?”.
A finalizar sua exposição, o presidente da ABPEducom conclamou os associados da entidade e as lideranças indígenas a convergirem esforços para que as infâncias e juventudes assumam seu papal de arautos de uma causa urgente: o restabelecimento do diálogo dos humanos com a Mãe Terra, pela Educomunicação.
Roda de conversa com seis cineastas indígenas
Momentos fortes do IV Encontro foram os representados pelos debates em torno das articulações entre a Educomunicação, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a Extensão Universitária, ocorridos no segundo dia do evento, com destaque para as análises de práticas de jornalismo independente socioambiental, que contou com um exposição por parte da jornalista Sucena Resk, bem como com a apresentação de práticas de incursão intercultural do curso de Jornalismo da Unemat, realizadas pelo professor Lawrenberg Advíncula da Silva. Um terceiro relato abordou o projeto Caminhos das Águas, do Ministério da Cultura, sob a responsabilidade de Mauricio Virgulino.
Ainda no segundo dia do encontro, os debates que mobilizaram maior público foram os que analisaram produções audiovisuais, sob a perspectiva educomunicativa, com destaque para:
1) As práticas audiovisuais lideradas por crianças, adolescentes e jovens de diversas etnias do projeto Educom.Guarani, da Unila, apresentadas por Mário Vilalva; e 2) A produção audiovisual Xavante, a partir da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), apresentada pelo professor Gilson Costa; e 3) a produção, distribuição e impacto da produção cinematográfica dos cineastas indígenas, examinados pela documentarista e professora Carolina Machado Oliveira.
O IV Encontro se encerrou na manhã do dia 23/08, com uma roda de conversas sobre “Cinema Indígena e os Cineastas Indígenas” que pode ser acessada nos canais da Unemat e do Educom.Jor no YouTube.


